Utilizar Jogadas Óbvias Para Seu Benefício

Existem certas situações onde pode ser bastante mais benéfico pegar em jogadas óbvias e colocá-las a seu favor. Alguma vez já igualou uma aposta, que aparentemente era um bluff, apenas para o seu adversário exibir o nuts (melhor mão possível) no fim?

É possível que isso tenha sido um exemplo de um momento em que alguém tirou partido da força presumida da sua mão, de forma a garantir o prémio máximo. Este tipo de compreensão não é importante quando possui uma mão óbvia, mas é valiosa em situações onde os seus adversários provavelmente leem a sua mão como sendo óbvia.Utilizar Jogadas Óbvias Para Seu Benefício

Pense nos momentos em que obteve um set (trio/trinca feito com uma carta comunitária e um par de cartas na mão do jogador) no flop. Se igualar as apostas num flop e no turn com um heavy board (a mesa contém cartas comunitárias semelhantes em número ou em naipe), um river em branco irá providenciar uma oportunidade para espremer o máximo valor possível da sua mão, ao fingir que o seu draw não foi favorável. Se jogar a sua mão de forma face up (ações que facilitam que os adversários adivinhem a sua mão), não se surpreenda quando conseguir fazer com que os oponentes paguem as suas apostas, mas a chave é nunca ter a mão que é mais esperada.

Caso esteja a tentar confundir os seus adversários ao representar uma mão diferente, deve ser cuidadoso para não comprometer as suas hipóteses de ganhar durante o processo. Existe uma diferença significativa entre aproveitar o máximo de uma circunstância natural e tentar demasiado para forçar um eventual spot (dedução do adversário).

Jogar com uma mão elevada, fingindo que não tem nada, pode facilmente custar-lhe todo o dinheiro, que provavelmente ganharia se tivesse jogado de forma mais direta. No cerne da questão, o póquer irá sempre depender da forma como aposta em determinadas situações que se apresentam, e nunca será sobre criar forçosamente situações rentáveis onde não existiriam de qualquer outra forma provável.

Benefícios Pré-Flop

Quando se encontra numa situação de pré-flop e joga a sua mão de uma forma relativamente direta, você deve aperceber-se das vantagens que poderá obter após a distribuição do flop. Se, por exemplo, você tiver realizado uma three bet (reaumento de uma aposta antes do flop) com R2 do mesmo naipe na sua mão, numa tentativa de roubar o pot no pré-flop, mas em vez disso o seu adversário surpreende-o com um call, você tem que estar preparado e disposto a assumir o rolo de agressor durante o flop.

No entanto, este é um exemplo bastante óbvio, visto que qualquer three bet necessita de se preparar para alguma ação pós-flop, mas mesmo assim ilustra o facto de ser possível mascarar uma mão de R2 como uma mão de DD. Sem conseguir ver ou ler corretamente a sua mão, é provável que o seu oponente não consiga decifrar entre uma boa mão (DD) ou aquela que você realmente possui (R2).

Também é possível que se encontre em situações pré-flop onde não está na posição correta para criar um engano. Caso se insira num pote com uma mão alta e os outros jogadores simplesmente igualam as blinds, você conseguirá disparar em todas as rondas de apostas contra mãos razoavelmente fracas. O problema com esta jogada é que irá frequentemente trocar o valor inerente e imediato de mãos altas, apenas para conseguir espremer mais valor de mãos mais fracas. Por outras palavras, AA vs. 89 irá ser mais rentável num pote sem raises (aumentos), com a carta mais alta na mesa sendo o 9, do que seria numa three bet com Dama mais alta na mesa.

Você deverá conseguir calcular eficazmente a sua taxa de risco e recompensa nestas situações, mas isto não difere da maioria de outras situações no póquer pré-flop. Maioritariamente, será melhor obter o valor “mais fácil” sempre que puder, mas isso não significa que uma jogada passiva não pode ser utilizada para confundir os seus adversários ocasionalmente.

Benefícios Pós-Flop

O pós-flop é, indiscutivelmente, o momento onde pode realmente tirar o máximo partido de algumas situações interessantes. Terá muito mais espaço para ser criativo e manobrar-se quando ultrapassa a ronda do flop. A dimensão do seu stack (quantia total de fichas remanescentes) torna-se mais relevante, existem mais possibilidades para alterar a sua abordagem e, principalmente, terá uma ideia mais fundamentada acerca da classificação da sua mão.

Tentar enganar o seu adversário para que este pense que você possui um conetor do mesmo naipe é uma melhor ideia numa mesa draw heavy (contém cartas comunitárias semelhantes em número ou em naipe) que falhou, do que é com quaisquer outros tipos de mãos completas. Quanto mais informações (cartas e ação) estiverem disponíveis, melhor será a posição que pode tomar para confundir o seu adversário.

A melhor forma de ilustrar este ponto é através de exemplos reais. Digamos que possui na mão um par decente (pocket pair), por exemplo um par de Valetes. O flop só contém cartas baixas e você lidera a ronda. O turn revela outra carta baixa, por isso você dispara outra aposta e o seu oponente volta a igualar. O river entrega um Rei. É provável que ainda esteja na frente, uma vez que não faria muito sentido se o seu adversário igualasse as suas apostas apenas com um Rei na mão, no entanto, para si o Rei pode potencialmente ser uma das melhores cartas no baralho.

É importante salientar que uma Dama ou um Ás teriam sensivelmente o mesmo valor neste cenário. Visto como a mão foi jogada, faria sentido se o seu adversário possuísse um overpair (par na mão que é mais elevado do que qualquer outro par ou carta pertencente às cartas comunitárias) que agora é derrotado por uma carta superior na mesa. Se existirem vários draws (mãos inacabadas) em jogo, um draw falhado em conjunto com uma overcard (carta na mão que é superior a qualquer outra carta comunitária) pode criar a oportunidade ideal para fazer bluff. Uma vez que sabe que o seu adversário pode ter permanecido num draw desde o início, não existe qualquer razão para apostar novamente no river.

Se estiver realmente atrás, a sua aposta será aumentada e você será forçado a fazer fold. Caso esteja na liderança, ambos os cenários são positivos: o seu adversário iguala a aposta, ou aumenta. Caso este aumente e você estiver confiante que a sua mão é superior, acaba de ganhar uma aposta adicional. Se este igualar apenas a aposta, você evita arriscar mais dinheiro e conseguiu obter o pote. Se jogar a sua mão da maneira mais direta e simples possível, por vezes os seus adversários farão o seu melhor para o obrigar a fazer fold. Para além disso, um dos seus piores cenários (igualar uma aposta contra uma mão superior) é bem melhor do que o seu pior cenário, caso aposte ou aumente (aumentarem a sua aposta).

Na realidade, existem situações infinitas onde estas ideias podem ser colocadas em prática, mas algumas destas definitivamente se destacam: aumentar em mesas com draws falhados, aumentar/apostar em overcards quando na verdade você possui uma mão bastante melhor do que o par que está a representar, e induzir apostas dos jogadores agressivos que tentam forçar os folds. Enquanto estas não são as únicas situações onde as jogadas mais óbvias podem ser uma vantagem através do engano, estas são ilustrações fantásticas de como a perceção é tudo no póquer.